Abril 2011

PRÉMIO 2010 DE 
FOTOJORNALISMO
ESTAÇÃO IMAGEM | Mora

Martinho Costa
Da séria “VÖLKERWANDERUNG”- Pintura

Cristina Oliveira
“Tango 4.2” - Técnica mista

Lourenço Câmara Lomelino
“Insert Your Life Story Here” - Aguarela

Patricia Geraldes
“O grande rio coberto de barcas mortas”

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Prémio 2010 de Fotojornalismo - uma organização da Estação Imagem.

Depois da primeira apresentação pública da exposição no Centro Português de Fotografia - Porto, Fevereiro 2011 - a exposição é mostrada em Lisboa, na Fábrica Braço de Prata, de 7 de Abril a 28 de Maio.

O prémio, único nesta área em Portugal, promovido pela ESTAÇÃO IMAGEM com a parceria da Câmara Municipal de Mora, está aberto à participação dos fotojornalistas portugueses e dos PALOP, bem como aos estrangeiros residentes em Portugal ou nos PALOP.
A RTP e a Agência Lusa foram os parceiros media da edição 2010. O objectivo do prémio é promover a reportagem fotográfica, género jornalístico em que os jornais e revistas nacionais cada vez apostam menos, e o elevado número de participações confirma a importância de que se reveste uma iniciativa deste tipo. 

Foram submetidas a concurso 636 reportagens de 190 fotojornalistas nesta primeira edição, resultantes de trabalhos produzidos para a imprensa em 2009.

A presidente do júri do World Press Photo 2010, Ayperi Karabuda Ecer, acedeu em vir a Portugal para presidir ao júri do concurso. Ela é vice-presidente da Reuters Pictures, uma das mais importantes agências noticiosas mundiais. A seu lado teve o fotojornalista Francesco Zizola, premiado oito vezes no World Press Photo; a directora de fotografia da revista francesa Geo, Magdalena Herrera; e a coordenadora europeia de fotografia do jornal The New York Times, Daphné Anglès. O júri reuniu-se em Mora entre 21 e 24 de Abril, e os vencedores foram anunciados numa cerimónia pública realizada naquela vila alentejana no dia 24 de Abril. No dia 25 o júri deu uma conferência em que explicou as razões das suas escolhas.

O prémio estava dividido em sete categorias: Notícias, Vida Quotidiana, Retrato, Desporto, Artes e Espectáculo, Ambiente e Eleições. O vencedor de cada categoria recebeu 2.500 euros. De todas as reportagens a concurso, o júri escolheu a vencedora do prémio ESTAÇÃO IMAGEM | MORA, distinguida com 7500 euros. Coube também ao júri escolher, entre os 32 inscritos, qual o projecto que recebeu a bolsa ESTAÇÃO IMAGEM | MORA, no valor de 5.000 euros. O fotojornalista vencedor desenvolveu em 2010 um trabalho sobre o Alentejo, que será editado em livro e
exposto na entrega dos prémios da edição 2011. Pela primeira vez em Portugal a apresentação dos trabalhos candidatos foi feita através da internet, no site da Estação Imagem.



Em simultâneo inauguram também as seguintes exposições, que estarão patentes de 07 a 01 de Maio:





Martinho Costa
Da séria “VÖLKERWANDERUNG”- Pintura




Batalhas Atópicas e Sem Memória

Integrada na nobre «Pintura de História» - o grand genre segundo a hierarquia académica formalizada no século XVII -, a cena de batalha serviu, desde a Antiguidade, de monumento comemorativo para narrar com dimensão épica as sagas militares factuais e míticas travadas pelos povos contemporâneos e ancestrais. Tal temática era tida em elevada consideração na medida em que exortava a edificação pública dos ideais civis mediante mensagens de índole moral e intelectual, invariavelmente veiculadas com um forte pendor pedagógico e propagandístico.
Na série Völkerwanderung (Deambulação dos povos), Martinho Costa parece pintar batalhas históricas. No entanto, num segundo olhar compreendemos ser vão tentar determinar o local do evento mediante uma série de presenças significativas, testemunhais. São as cenas fabricadas digitalmente, aquelas que fascinam jovens e adultos aficcionados pelo mundo das consolas e jogos para PC. E atende-se que o pintor as quis compreender depois de ter visitado os sites que as catalogam, reconhecendo que já o eram pinturas per se de pleno direito. 
Porque é que os artistas contemporâneos não pintam as grandes batalhas do presente ou do passado com a dimensão edificante de outrora? Para ensaiar respostas teremos que nos debruçar sobre as superestruturas ideológicas que determinam a nossa época: pós-colonial e anti-imperialista. O relativismo cultural desencantado, que perpassa os discursos intelectuais e políticos dominantes, visa aplacar qualquer sujeito eleito pelos conhecidos messianismos providenciais que inspiraram, durante séculos, os ideários heróicos das nações (ainda que alguns deles continuem espreitando, à espera de um novo ensejo). Neste pano de fundo são sucessivamente convocadas as chagas abertas pela arte oficial que marcou o período entre guerras. Mais: a própria Guerra, sob o crivo colectivo tecido após o segundo grande conflito mundial, tornara-se monstruosidade, identificada com imperialismo, ditadura e fascismo. 
Vivendo sob o fantasma do Holocausto reitera-se o paradigma da des-idealização da imagem do advento militar. Fenómeno já seminal no século XIX, com Goya – Os Fuzilamentos de 1808 (1816) - e exacerbado, no século XX, por Picasso - Guernica (1937) e Massacre na Coréia (1951). Nasce então o arquétipo do artista como testemunha de acusação dos horrores e absurdos da guerra, representando-a já não com a glória do fausto heróico, mas como carnificina e catástrofe. Torna-se vileza, atrocidade apocalíptica, aviso premonitório do fim da civilização. 
Contudo, nas batalhas que Martinho pinta não vemos a versão «pesadelo» do conflito armado visando retratar a brutalidade da barbárie e a ignomínia da degradação humana. Ainda que resolutamente desembaraçadas do sensacionalismo dramático e heróico de outrora, as suas cenas são inócuas pelo seu carácter de pura demonstração, vitrine cénica de eventos «fabricados» em concordância com as tipologias catalogadas na rede digital. Adquirem, ao invés, um sotaque escolar, de figura de manual de história ou de banda desenhada.

Martinho surge como aquele que pretende rememorar esse passado longínquo da pintura, constatando a actualização de um olhar já não ferido pela dimensão ideológica. Instaura, com isto, uma assertiva tomada de posição frente à História de Arte. Herdeira da tapeçaria descrita na Ilíada que conta, em curiosa situação de mise en abîme, a guerra de Tróia ( fonte mítica dos modelos protocolares da conduta heróica que perpassou milénios em consecutivas remissões eruditas ), a cena de Batalha que Martinho apropria acaba por demonstrar como os antigos esquemas recuperados pelos jogos de computador são aparentemente «instrumento neutro», fora da época que o fabricou. Lembrando que não há instrumento de uma época (ou poder), mas quando muito uma utilização histórica do instrumento. Assumindo-se, assim, como denúncia de um ingénuo, e por isso perigoso, gesto de branqueamento ideológico das formas de representação do passado.  
Estas pinturas de batalhas não oferecem modelos. Mas pintá-las significa dar-lhes, irremediavelmente, um peso, uma consistência maior perante a coisa vista em pequeno formato, que logo se desvaneceu no desenrolar do jogo, em prol da mesma coisa pintada, que permanece, ao assumir a perenidade associada ao medium. Por oposição à dinâmica cinemática do jogo, Martinho recupera o silêncio eloquente da arte monumental. Contudo, a solenidade do tema é de imediato rebaixada depois de sabermos a sua proveniência...
A indiferença ao histórico espreita para revelar a sua obstinação em seguir o destino da prestação, signo da máquina, como dispositivo de criação de realidades destinadas ao lazer, à aventura do imaginário actuante. De um ponto de vista céptico e desencantado, cínico e niilista, este empreendimento visa repensar as lógicas que subjazem a sociedade do entretenimento. Neste ponto, Martinho deslinda o seu dedo acusatório porque constata a futilidade do trânsito veloz das imagens. Tanto vale este como aquele momento, este ou aquele lugar, porque carecem de qualquer outro significado que não seja o da imagem por si mesma, simulacral, exaurida da sua função moral e pedagógica. (A embriaguez da amnésia aviltra sempre a desfundamentação do presente.) Ao usar fórmulas obsoletas que, apesar de tudo, ainda ecoam no imaginário popular mais prosaico, Martinho chega a uma irónica determinação da Pintura de História: a história não é mais facto memorável e exemplar, tampouco drama ou episódio, mas sobretudo palco de encenação/ficção incessante. A guerra que Martinho pinta já não é o evento ocorrido que se pode somente ilustrar ou recriar, mas uma virtualidade que pressupõe todos os seus possíveis desenvolvimentos e configurações, términos e resoluções, em aberto.
O sujeito-jogador ao assumir de empréstimo todas as identidades - de cavaleiro, arqueiro, chefe militar, estratega - concentra em si todas as responsabilidades e todos os actos da narrativa. Este fascínio, algo nostálgico, assenta ainda na nossa ingénita aptidão para agir na história. Neles exercita-se esse campo de batalha onde se joga a sorte, se testa a pontaria ou se tenta engendrar planos de estratégia militar. A cena «recriada» não deve mais reflectir as ambiciosas fantasias dos soberanos, e sim responder ao deleite particular de cada um. O Homem contemporâneo não pode experimentar outro sentimento senão o das suas escolhas. Como que por louco acesso de soberba, pode imaginar-se assim já um qualquer general, bramindo a espada em grito de guerra, acabando de modo inconfesso por incitar as forças primárias que existem recalcadas em cada um de nós... (O visitante vê esta cegueira, encontra-se de fora, já não é jogador mas o seu juiz.)
Bruno Marques
Doutorando em História de Arte (FCSH da UNL) e membro do projecto de curadoria independente inter-face / Arte Contemporânea






Cristina Oliveira
“Tango 4.2” - Técnica mista 

O Tango, ou o abraço de sangue, suor e lágrimas.

Materialização da “souffrance “ provocada pela paixão amorosa; essa dança incessante e violenta que assola os corações que se arrebatam. Relato insinuante das intensidades das suas peripécias.

Estilização da dor e suas passagens mais significantes, num palco onde desfilam felicidades e angústias; tragédias onde se debatem vencedores e vencidos, trabalho e exaustão, poder e submissão.

O Tango, esse agente invisível que enlouquece os seus actores e os conduz por um abismo de volatilidade e volúpia.

Da música à paleta de cores, tudo converge para fundir esse universo simbólico de vida ou de morte, de urgências, de rubro.

Convocando o léxico “tanguero” e sagrando-o nestes objectos “preciosos” que o fixam (como se isso fosse algo possível…) aqui insinuo também esse mundo, através destes veludos negros, macios como dores ocultas, vermelhos como o sangue quente.




Lourenço Câmara Lomelino
“Insert Your Life Story Here” - Aguarela

História que contam histórias
Lourenço Lomelino manifesta ser um construtor de imagens na delineação figurativa que dá a estes trabalhos a sua notável qualidade gráfica, ao mesmo tempo que demonstra a uma grande sensibilidade pictórica. Ao procurar conciliar dois processos  estilisticamente divergentes, o artista aproxima cada vez mais o desenho da pintura.

Nesta série de obras, a iconografia surge da capacidade de invenção de signos – base estruturante de uma rede viva de comunicação visual – onde se cruzam referências e se constrói uma comunidade de representações, valores, símbolos e formas.

À medida que abordamos as obras de Lourenço Lomelino encontramos sempre alguns elementos comuns:
• O conceito espacial tem características muito pessoais e é imposto pelo desenho.
• O efeito de espaço é conseguido pela utilização de cores em tonalidades suaves sobre áreas de superfície plana, tornando claros os seus símbolos, ao mesmo tempo que aumenta a sua complexidade alegórica.
• Cada figura cria o seu próprio espaço dentro de qualquer composição e detém o olhar, ainda que só durante o tempo necessário para percorrer com a vista a linha que contorna a figura.
• Todas as fracções da superfície do quadro têm a mesma importância e, mais importante ainda, são activas.
• A modulação do claro-escuro da luz, nas figuras isoladas, nas quais a linha e o tom local são fundamentais, é conseguida através de manchas de cor em tonalidades variadas.
• O tema é o acto de desenhar as linhas que descrevem figuras, acentuam as formas, são prolongamentos – traços – de ritmos, de espessura variada.
• A preferência decidida pela figura humana, coabita no mesmo espaço com inscrições caligráficas, numéricas ou simbólicas e com alusões aos reinos, animal e vegetal, com os quais cria uma organicidade rara entre a concepção das formas.

Estes trabalhos, através da marca que só o artista lhes pode imprimir, traduzem toda a sua experiência no processo de criação da obra, além da que resulta das suas vivências no plano individual e artístico.
Os seus quadros contam histórias… de que podemos apropriar-nos, quer através da observação de cada uma das suas personagens, quer pela leitura do simbolismo do respectivo enredo.
São visões novas, mesmo renovadas, das interrogações que, muitas vezes, se levantam ao artista, na dialéctica, sempre presente, entre a expressão individual e a sua consonância com a realidade.
Lourenço Lomelino é, enfim, um artista do seu próprio tempo e dele dá testemunho.

Maria Fernanda Carvalho




Patricia Geraldes
“O grande rio coberto de barcas mortas”
Inauguração Dia 29 de Abril

A ideia deste projecto surgiu quando observava as imagens do espaço a intervir, e me apercebi da imponência que o espaço contém, sendo como um grande corredor vertical. 
Imediatamente comecei a construir imagens imaginando uma serpente gigante que se ergue sobre os espectadores, envolvida por seis medalhões dourados, também eles desenhados mas desta vez com papel de veludo recortado.

Os medalhões pintados directamente nas paredes e riscados por papel de veludo que envolvem o grande desenho, apresentam-se como pequenos graffitis e atribuem um elemento de glamour à intervenção. A intenção é tornar um espaço de passagem num momento de pausa e de contemplação.

A intervenção consiste em 2 elementos:
1º Um grande desenho preto sobre fundo vermelho, 300 Cm x 200 cm, acrílico sobre papel colocado na parede do meio.
2º Seis círculos prateados sobre os quais seis desenhos feitos em papel de veludo, o diâmetro dos círculos é 20 cm, acrílico e papel de veludo montados nas duas paredes laterais.


Março 2011

Exposição 03/03 - 03/04/11
Giorgia Grippo Belfi
“Eu Canto” - Ilustração

Gilberto Gaspar
“Figuras Fictícias” - Pintura

Eduardo Nunes
“Os Dias de Raiva” - Pintura

Carlos Ribeiro
Instalação e Vídeo

Alburneo
“Apokálypsis” - Técnica mista


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Giorgia Grippo Belfi
“Eu Canto” - Ilustração
Num primeiro contacto com esta exposição, ela conta-nos,  com o  movimento que emana, a história imaginaria de uma mulher, uma mulher que vive e comunica através da sua música, do seu fado e, por ele, vive. 

Há uma clara noção de história e contexto para lá de cada imagem, causando  uma constante ilusão de movimento e som que  mexe verdadeiramente com os nossos  sentidos. 
É de forma original e realmente envolvente que uma realidade quotidiana é apresentada. 
Somos mesmo transportados para o seu interior, como se de um bairro se tratasse, um bairro numa época já antiga mas ainda actual nos nossos imaginários.
A inspiração para estas obras, nasceu do primeiro contacto que a artista teve com a canção nacional Portuguêsa e, talvez, o seu mais marcante património, o Fado. O seu caminho cruzou-se com o destino português e aconteceu fado na vida de uma italiana. 
Sentiu-o numa pequena tasca onde, de forma informal, se cruzou com esta música, foram momentos recheados de sentimento, cantaram-se alegrias, tristezas, amores e traições, saudade e tradições, todos cantaram, todos viveram.
Começou assim a aventura desta artista em Portugal, na busca do melhor modo para partilhar com o mundo o que sentiu naquela noite. Esta exposição é, então, a visão de alguém que se entregou à paixão de melhor conhecer e sentir Portugal, Lisboa, o Fado!




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Gilberto Gaspar
“Figuras Fictícias” - Pintura


«O, answer me!
Let me not burst in ignorance; but tell
Why thy canonized bones, hearsed in death,
Have burst their cerements; why the sepulchre,
Wherein we saw thee quietly inurn’d,
Hath oped his ponderous and marble jaws,
To cast thee up again. What may this mean,
That thou, dead corse, again in complete steel
Revisit’st thus the glimpses of the moon,
Making night hideous; and we fools of nature
So horridly to shake our disposition
With thoughts beyond the reaches of our souls?
Say, why is this? wherefore? what should we do?»

William Shakespeare - Hamlet


A exposição das obras de Gilberto Gaspar na Galeria da Fábrica Braço de Prata é indubitavelmente um momento de charneira na sua obra e permite ao observador mais atento perceber que, na coerência das obras expostas, há novas vias plásticas que se abrem, sem se abandonar um percurso que já se vinha trilhando. Um bom mote para esta exposição de figuras fictícias pode muito bem ser a obra que nomeou a partir de uma celebrizada canção: “E depois do adeus”. No percurso/vida do artista, no período cronológico que marca a feitura das telas apresentadas nesta exposição, houve vários momentos chave, sobretudo dois acontecimentos charneira que reservaremos aqui, mas que não podem escapar ao “espectador” que gosta de procurar sentidos no que é mostrado e que quase que induziram Gilberto Gaspar a uma paragem, certamente fácil, que o artista rejeitou, que trocou por uma reflexão, se obrigou a prosseguir e sobretudo a registar plasticamente o seu percurso e as suas inquietações de um período em que de alguma forma se tornou num pintor nómada. 
Depois do adeus, depois das despedidas, no dia seguinte, a música volta a tocar, e porque não da Sinfonia n.º 6 “Patética”, o Allegro com grazia, de Piotr Tchaikovsky, que com os seus instrumentos de eleição, os pincéis também procurou interpretar, numa reflexão que se transporta para a tela, objecto alvo da catarse. De repente, inopinadamente houve a percepção que novos caminhos plásticos estavam a ser trilhados.
Antes de mais verifica-se que houve uma alteração no suporte. Efectivamente, de há algum tempo a esta parte que o autor vinha substituindo a tela, como suporte habitual, por tecidos já estampados que trata de forma a conferir-lhe a solidez e perenidade necessárias para servir de base à pintura e que depois transforma.


A iconografia também muda, nas primeiras obras o elemento feminino é o elemento central, com momentos de rara sensualidade, visível em obras como “Bela Adormecida” ou “Flora”.
Depois, embora a mulher não deixe de estar presente e ser uma e outra vez revisitada, novos temas são buscados. As ausências que o pintor sente são colmatadas por figuras fictícias, por amigos que se abraçam, por novas cumplicidades evidenciadas nas obras, por vezes perturbantes, que remetem para o transcendente, para uma protecção inexplicável dos que partiram e continuam na nossa vida, que nos continuam a proteger, a acarinhar e a aconselhar, num diálogo que não é interrompido. Coteje-se aliás estas pinturas com um espantoso retrato póstumo, realizado pelo insigne pintor maneirista Giorgio Vasari, de Lourenço o Magnífico onde este príncipe florentino surge confrontado por uma máscara que lhe parece segredar ou, melhor, compare-se o que é titulado de “Beijos fraternais” com as descrições da aparição do rei, pai de Hamlet, na obra homónima de William Shakespeare.
Há ainda lugar, na pintura de Gilberto Gaspar, para a esfera do onírico, para o mundo inefável dos sonhos onde nada é impossível e até o voo é praticável, podendo as figuras pairar sobre percursos esotéricos, verdadeiros anjos sem asas.
Por fim, mas não menos importante, refira-se que a presente exposição marca uma profunda mudança na forma de registar o mundo de Gilberto Gaspar. Nas primeiras obras há uma clara evidenciação de competências plásticas, embora sem jamais se cair no academismo, enquanto nas obras mais recentes, não que essa capacidade técnica deixe de estar presente, mas cessa de ser uma preocupação e o pincel passa a fluir de outra forma, prendendo-se muito mais à expressão, de tal forma que o pintor não sente sequer a necessidade de as figuras que pinta tenham que ser anatomicamente possíveis.
Que bela forma de ajustar contas com a Vida…
Paulo Morais-Alexandre
Professor de Problemas da Arte Contemporânea e História da Arte na Escola Superior de Teatro e Cinema; Doutor em Letras, especialidade de História da Arte pela Universidade de Coimbra



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Eduardo Nunes
“Os Dias de Raiva” - Pintura


O que me interessa na pintura é a capacidade de respirar.
É como um diafragma que carrega identidades e emoções e deixa passar para os nervos aquilo que vedadeiramente os electriza.
É uma parede translúcida que respira sorrisos esgotados.
É um olhar através da côr e do riso que se torna movimento.
É a negação da banalidade.
A pintura relativiza o absurdo, é o refúgio da ternura.
Nesta pintura a vontade que chega à mão vem de palavras e sons que rápidamente se transformam em imagens e são concerteza a vontade de muita boca as gritar.
Eduardo Nunes






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Carlos Ribeiro
Instalação e Vídeo

“Fountain”, canalização galvanizada arrancada a uma casa em remodelação, torneira incógnita comprada na Feira da Ladra, cadeira alentejana que sentou várias gerações, terra de um pinhal em desaparecimento, remete, obviamente, para o extraordinário universo de Duchamp. Cita-o. Possui no entanto uma diferente índole. Herdeiro também, em certa medida, dos Readymade duchampianos, conta a “história” de um encontro não de uma escolha sem quaisquer fundamentos estéticos como fazia Marcel Duchamp com os seus Readymade. Os materiais que o compõem, impôs-se-me e organizaram-se no espaço tridimensional compondo uma emoção que na essência aflora aos meus sentidos ecoando como uma bela e poderosa sinfonia de Beethoven. Uma emoção que transportava dentro de mim mesmo sem o saber. 
Transporta consigo não uma história mas as de muitas pessoas que com ele, de alguma maneira se relacionaram. 
Nascida de uma simbiose entre duas peças originalmente autónomas, “Fountain” revela a sua verdadeira natureza deslocando-se pelo espaço periférico à urbe, viajando sem rumo, parando apenas quando um encontro casualmente se parece impor. Procura os “quase lugares” (ver vídeo no CD), aqueles que tangencialmente convivem com os habitantes da cidade porque se encontram esquecidos pela História ou porque apenas existem por uma muito breve fracção do tempo histórico. São espaços que ninguém consegue ou sabe já descrever. Desestruturados parecem estar possuidores de uma entropia que os torna simultaneamente efémeros e duradouros.


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Alburneo
“Apokálypsis” - Técnica mista
Civilização: o Momento

Três níveis de evolução mental no ciclo a que podemos chamar Inferior:

Analogia
Sincronicidade
Magia

Analogia
Estádio de desenvolvimento que permite reconhecer que todas as coisas são, na sua essência, iguais entre si.

Sincronicidade
Reconhecimento, por intermédio da Analogia, das relações que todas as coisas mantêm continuamente entre si.

Magia
Domínio dos factores que determinam as relações que as coisas mantêm entre si.

Alburneo